24-09-1910 – 𝐎 𝐟𝐢𝐦 𝐝𝐨 «𝐐𝐮𝐢𝐧𝐳𝐞 𝐝'𝐀𝐠𝐨𝐬𝐭𝐨»
A 24 de Setembro de 1910, saía o último número do Quinze d'Agosto. Prestes a entrar no seu quarto ano de publicação, o periódico mariense despedia-se dos leitores, deixando um testemunho expressivo sobre os desafios de fazer imprensa numa pequena comunidade insular.
Para perceber o alcance desta despedida, recuemos a 5 de Outubro de 1907, quando o jornal se apresentou com o propósito de contribuir para «o levantamento da sua terra natal». Os seus fundadores viam na imprensa um instrumento indispensável ao progresso, capaz de ocupar um «lugar triumphante na vida evolutiva dum organismo social».
Mas o ideal confrontava-se com a realidade. No último número, a redacção lamentava a «má vontade contra a sua existencia desde o seu nascimento», recordando as críticas, as resistências e a fragilidade dos apoios que haviam acompanhado o periódico. Nem os erros tipográficos escapavam à censura dos «pseudo-criticos», como ironicamente lhes chamava.
Em contrapartida, reconhecia os assinantes que, apesar de não terem «uma situação muito desafogada», nunca quiseram abandonar «o unico jornal da sua terra». A redacção via nesse apoio a expressão dos «deveres do mais rudimentar civismo».
Entre o ideal de 1907 e a despedida de 1910, emerge uma questão que continua a atravessar a história da imprensa local: como pode um jornal cumprir a missão que atribui a si próprio quando a sua sobrevivência depende do apoio — nem sempre garantido — da comunidade a que se dirige?
Mais do que um veículo de informação, o Quinze d'Agosto revela-se, nestes dois momentos, como espaço de intervenção cívica, de afirmação de pertença e de negociação da sua própria legitimidade. Naturalmente, são também textos de uma redacção que procura afirmar o valor do seu projecto, tanto no nascimento como na despedida.
E, ao anunciar o fim, deixava um último desejo, que ultrapassava o destino do próprio periódico:
«𝐐𝐮𝐞 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐨 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥, 𝐞𝐦 𝐛𝐫𝐞𝐯𝐞, 𝐧𝐨𝐬 𝐬𝐮𝐜𝐜𝐞𝐝𝐚, 𝐬ã𝐨 𝐨𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐞𝐣𝐨𝐬.»
Fontes: «Quinze d'Agosto», n.º 1, 5 de Outubro de 1907, e n.º 152, 24 de Setembro de 1910 – Biblioteca Nacional de Portugal.
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